ELOGIO DA LOUCURA MACHADIANA

 

Augusto Rodrigues da Silva Junior - UFG

 

Louco é aquele que pertence à vida, mas assim somos nós loucos! E esta é a maior loucura da vida!

Friedrich Nietzsche -  s.f.

 

Refletir sobre algumas questões em Machado de Assis é um problema literário. Utilizaremos a filosofia como forma de pensar alguns desses problemas a serem cuidadosamente levantados nas obras que encerram certas máscaras. Uma delas seria utilização da  loucura como um suporte na elaboração de personagens relacionadas à algumas obras filosóficas, apontadas nas narrativas. Pareceu-nos um caso literário muito grave e que necessita de um tratamento demorado e delicado.

Munidos de um problema, intrínseco à outros elaborados na história da crítica, utilizaremos a obra filosófico-literária, O Elogio da Loucura (1509)de Erasmo de Rotterdam (1466-1536) como contraponto às obras machadianas, que são principalmente, Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1886-1891)e o conto O Alienista (1882), exemplo maior da eterna contradição humana. Dentre vários personagens que poderiam ser chamados de "alienados", escolhemos para o nosso elogio da loucura machadiana: Brás Cubas, Quincas Borba e Simão Bacamarte.

 

Contar coisas que acontecem aqui-e-agora e avaliá-las com predicados antigos ou dizê-las com imagens vivas na memória da cultura é procedimento comum na grande literatura (BOSI, 1999: 46).

 

Brás Cubas, logo no início de seu livro, remonta à Sterne e Xavier de Maistre. A crítica machadiana da época inclui Almeida Garret, relacionando os três escritores ao estilo livre da narrativa e à forma difusa, o que seria supostamente, uma herança recebida deles. O que nos levou a fazer essa reflexão com o Elogio da Loucura foi justamente o estilo livre e despojado da narrativa e uma possível consonância no que diz respeito às rabujens de pessimismo de Brás Cubas, semelhantes às da Mória[1], narradora dos "elogios":

 

Erasmo expõe os poderosos de seu tempo – bispos, padres, papas, príncipes, etc. – ao ridículo, de forma mordaz e, com uma ironia dialética invejável, ludibria através da Loucura, traçando um panorama que mostra a presença da Mória nos sentimentos, desejos, atitudes e reflexões dos homens. Através de um embasamento filosófico e humanístico – Eclesiastes, Aristóteles, Horácio, dentre outros –, o moralista provoca uma revisão de seu meio e consegue ironizá-los através da releitura dos clássicos e da própria compreensão do homem na sociedade.[2]

 

A peculiaridade na figura da Loucura, escolhida como narradora, nada mais seria que um inteligente recurso literário que possibilita ao autor a liberdade de expressão: a um louco tudo é permitido fazer e dizer. De maneira semelhante, segue Machado de Assis o mesmo ardil, ao criar um defunto-autor que narra além do sepulcro, já distante das opiniões alheias. Brás Cubas, tal como a Loucura, pode criticar os homens de sua época, desmascarando-os com a mesma pena da galhofa e a mesma tinta da melancolia.

As imagens que compõem o livro do escritor brasileiro, ao estilo de Erasmo,  escavam os detalhes humanos como faziam os moralistas do seis-setecentos. A loucura como forma de expressão intensifica a densidade dos personagens e leva o leitor frequentemente às armadilhas correntes na obra machadiana.

As realidades, das quais os autores fazem uso, são amplas, contraditórias e geradoras de inúmeras possibilidades. Para Alfredo Bosi a vida em sociedade exige máscaras; La Rochefoucauld afirma que os homens as têm em todas as profissões. Ora bem, essa obliquidade incide justamente na postura do homem e sua representação em sociedade. Os seres machadianos ao virem munidos dessas características tornam-se peculiares, pois conseguem em seu meio, contrastarem com as convenções sociais, mesmo estando em fendas profundas da mente, nas formas de observador, narrador, filósofo ou louco.

A realização literária de Machado de Assis atinge tal plenitude que ao analisarmos os personagens de forma superficial nos parecerão somente figuras da sociedade brasileira do século XIX. Mas, se examinados de perto, somos obrigados a duvidar de tal fato, pois o homem machadiano é universal, seus problemas, são os mesmos de Hamlet, Horácio ou Otelo.

Note-se que Brás Cubas nos narra sua vida depois de morto e, ficamos à mercê de sua visão. Nos perguntamos se ele estaria realmente morto, ou seria apenas um longo delírio, última razão de um homem que "retira-se" da vida com "saldo negativo". Quincas Borba por sua vez, existe somente na memória de outros personagens e, seu legado filosófico foi incinerado por ele pouco antes de morrer. Quincas Borba realmente era real, ou seria apenas mais um dos delírios de Brás Cubas ou de Rubião? Ou seja, a não ser na lembrança de alguns homens que deliravam, o Humanitismo nunca existiu! Simão Bacamarte, depois de toda sua odisséia, isola-se na Casa Verde, na qual, meses depois sucumbe, alienado do mundo e de si mesmo.

Conclusão: todos os personagens em questão terminam suas filosóficas vidas, se assim podemos dizer, sozinhos, degradados, doentes, delirantes e moralmente derrotados. Tendo como pequeno saldo em comum, a derradeira negativa das negativas: não terem tido filhos e não terem transmitido a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.    (ASSIS. In: COUTINHO (Org.), 1992: 639).

Mas, voltemos aos "elogios". A deusa Mória elogia-se a si mesma em seu livro. Vaidosa, semelhante a Brás Cubas, lembra um antigo provérbio: não tens quem te elogie? Elogia-te a ti mesmo. Assim o faz o defunto-autor em todo o livro, engrandecendo-se e engrandecendo seus feitos medíocres. Ressaltando e dando-lhes importância maior do que mereceria, elogia seu invento, o Emplasto, seu discurso sobre a Barretina na câmara, sua medíocre passagem por uma Ordem Terceira, fase mais brilhante de sua vida, segundo ele. O intróito ao seu delírio, convidando e convencendo o leitor da importância dessa narrativa não nos desmente:

 

Que me conste, ainda ninguém relatou o seu próprio delírio; faço-o eu, e a ciência mo agradecerá. Se o leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais, pode saltar o capítulo; vá direto à narração. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que é interessante saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a trinta minutos.[3]

 

A Mória, em sua narrrativa fazos mesmos elogios de Brás Cubas, às vezes com as mesmas idéias fixas, tais como, o enaltecimento da voluptuosidade para a vida, a genealogia reiterada e salvaguarda do nome e ainda, diz possuir – somente ela! – o elixir admirável – que lembra o vaidoso Emplasto –  capaz de restituir a juventude, e o que é mais desejável, torná-la perpétua.

A narradora destaca uma de suas companheiras, a Philautia[4], tão comum nas personagens machadianas ou, segundo ela em todos os homens, principalmente na indiscreta curiosidade que anima filósofos e cientistas; O que faz Simão Bacamarte senão voltar para si ( segundo ele para a ciência ), durante toda a narrativa, abandonando os homens depois de obsessivas experiências fracassadas de compreensão da loucura alheia. De forma nietzscheana, sucumbe ao tentar conhecer-se a si mesmo, ou melhor, ao tentar reconhecer a própria loucura:

 

Isso é isto. Simão Bacamarte achou em si os característicos do perfeito equilíbrio mental e moral; pareceu-lhe que possuía a sagacidade, a paciência, a perseverança, a tolerância, a veracidade, o vigor moral, a lealdade, todas as qualidades enfim que podem formar um acabado mentecapto.[5]

 

Parafraseando o Machado moralista, herdeiro da metáfora pascaliana, diríamos que o homem olha somente para a ponta do próprio nariz. Quincas Borba que tem como avô espiritual Erasmo de Rotterdam, explica em sua filosófica maneira de delirar os acontecimentos da vida com sua teoria, o Humanitismo:

 

Erasmo, que no seu Elogio da Sandice escreveu algumas cousas boas, chamou a atenção para a complacência com que dois burros se coçam um ao outro. Estou longe de rejeitar essa observação de Erasmo; mas direi o que ele não disse, a saber, que, se um dos burros coçar melhor o outro esse há de ter nos olhos algum indício especial de satisfação. (...) A consciência é a mesma coisa, remira-se a miúdo...[6]

 

A Deusa afirma: Tudo que fazem os homens está cheio de loucura. São loucos tratando com loucos (Erasmo, s.d.: 53). Simão Bacamarte, ao internar quatro quintos da população de Itaguaí parece pensar da mesma forma. Muito mais que uma crítica ao cientificismo (positivista) do século XIX e, um encaixamento sucessivo de relações de poder, como o quer Alfredo Bosi em A Máscara e a Fenda, preferimos agir como Machado, tomando uma postura cética diante de seu universo, tentando desvendar o que há por trás das máscaras no palco da divina comédia humana.

O Alienista, ao contrapor o paralelo entre loucura e razão, provoca o leitor, independente da interpretação crítica verticalizada, ou da simples leitura daquele que tenha alguma hora que absolutamente não possa empregar em outra coisa[7]. Machado é o inventor da ficção e, suas reflexões sobre determinados fatos, como os do conto em questão, nos levam  a olhar para a máscara impassível da narrativa:

 

É a loucura que forma as cidades; graças a ela é que subsistem os governos, a religião, os conselhos, os tribunais; e é mesmo lícito asseverar que a vida humana não passa, afinal, de uma espécie de divertimento da Loucura. ( ERASMO, s.d.: 54).

 

Nesse sentido, as atitudes de Simão Bacamarte confluem com as de Erasmo: Loucura das loucuras, tudo é loucura... Após aplicar suas reflexões cordiais que tinham lá os seu métodos, o médico termina caracterizando-se como o verdadeiro e único louco da história. Suas atitudes ultrapassavam a medida da cidade, rompendo com a ordem estabelecida pelo povo itaguaiense. Ainda que essa sociedade tenha – quase – se revoltado, na realidade curvou-se diante do médico e nada pôde fazer, senão manter cotidianamente suas relações. Após o auto-internamento e morte do cientista, assim caminhou "normalmente" a humanidade de Itaguaí no curso da História, com seus atos moralmente permissíveis e normais.

Notemos que Machado situa o conflito de Itaguaí em um momento de transição no processo de História da Loucura. Pensemos na Casa Verde como uma instituição – verossímil – dessa época, e reflitamos apoiados pela obra de Michel Foucault sobre esse espaço moral de exclusão (FOUCAULT, 1986: 8).

Num primeiro momento, permeado pelo racionalismo cartesiano, a loucura não era tida como doença físico-mental, não era estudada organicamente. O louco era apenas um homem da desrazão, insensato, que devia ser afastado dos demais. O processo de exclusão deu-se gradualmente e, a partir do fim do século XVIII e início do século XIX, começa a surgir a idéia de doença mental e os hospitais psiquiátricos, do qual a Casa Verde seria um modelo, literário é certo, mas palco dos acontecimentos do conto. Nesse momento há uma mudança na concepção de loucura, principalmente com relação aos médicos que passam a ser detentores de maior poder, definindo quem deveria ou não, ser internado. Ao estilo de Simão Bacamarte a Cultura rejeita sua parte louca, ávida pela eterna busca da razão.

Note-se que não discordamos da assertiva das relações de poder, porém propomos ir além dessa obviedade e tentarmos, escavando arqueologicamente a narrativa machadiana, compreender essa experiência filosofante e literária acerca da loucura.

Essa mesma loucura que aparece como uma coisa ameaçadora socialmente, demonstra, nas prisões arbitrárias, um longo processo histórico de controle e exclusão demonstrado por Foucault. No conto, duas vertentes se cruzam dialeticamente pois, tanto o racionalismo cartesiano do século XVIII aparece como pressuposto que delimita a fronteira entre razão e loucura, bem como a idéia moderna – e positivista do século XIX – em que a ciência pode classificar patologicamente a doença mental:

 

... o alienista procedeu uma vasta classificação dos seus enfermos. Dividiu-os primeiramente em duas classes principais: os furiosos e os mansos; daí passou às subclasses, monomanias, delírios, alucinações diversas. (ASSIS. In: COUTINHO (Org.) 1986: 257)

 

Na perspectiva da obra de Hegel,a alienação é um contrato entre o universal e o particular inserido na própria razão. Simão Bacamarte não só separou os homens que ficavam anoitecidos do lado de dentro da Casa Verde em cárcere privado, mas determinou, também, quais seriam os que amanheceriam do lado de fora da Bastilha da Razão Humana.

O narrador machadiano mostra o homem da ciência como o ser precário no sentido trágico: sua obsessão leva-o à morte. Sua vida é intensificada por uma linha de fuga, sugerida por Deleuze  – a partir de sua obra –, sendo ela a afirmação da vida, ou antes, em Machado, a negação metafórica do próprio devir humano.

Agora, penetremos surdamente no reino da intersecção entre a loucura e a razão. Na criação literária temos a obliquidade, que seria a recriação e o porvir do indivíduo através da palavra. A redenção pela arte, concluem os pensadores contemporâneos, é a mesma que se dá na literatura e na filosofia, ambas são fruto da razão humana na "luta" contra a morte e contra a loucura.

Machado utiliza Erasmo, Pascal, Diderot, dentre outros para a recriação. Rompendo com a perspectiva maniqueísta busca uma outra, em que a imaginação seja o próprio elemento ubíquo e racional. Para Foucault, a partir de Nietzsche, a obra literária moderna põe em questão a razão. Para nós, diríamos: é a partir de Machado, contemporâneo do filósofo alemão, que a loucura é posta em questão.

O processo literário se dá através da construção de uma obra, fruto do que é racional e que contrapõe-se à loucura, entendida como ausência de obra. O indivíduo recria a realidade através da palavra, força dinâmica que transforma o mundo aparente, pela própria vontade numa representação que é metafórica em todos os seu níveis, e, uma vez que tudo é metafórico, "ao nível da representação todas as metáforas se equivalem"(DURAND, 1997: 30).

A relação do homem com a morte e com a loucura sempre foi um problema existencial. Através do símbolo e da metáfora ele busca a possibilidade de transcender e ao narrar tenta dominar determinado fato. No desejo de conhecer a alienação e a morte as reflexões se fazem necessárias. Para o homem a única chance de romper com o próprio limite diante dessas dúvidas, uma vez que Deus está morto, é a palavra. A imaginação, força motriz desse "transporte", tende a transformar no ato perceptivo, o mundo aparente da razão em loucura e representação.

 

 

ReferênciaS Bibliográficas:

 

BOSI, Alfredo. Machado de Assis: O enigma do olhar. São Paulo: Ática, 1999.

BLOOM, Harold. Shakespeare: a invenção do humano. Trad. de José Roberto O'Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

COUTINHO, Afrânio (org.). Machado de Assis. Obra Completa. vol. II .Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.

___. vol. III. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992.

DURAND, Gilbert. As Estruturas Antropológicas do Imaginário. Trad. de Hélder Godinho. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

ERASMO. Elogio da Loucura. Trad. de Paulo M. Oliveira. Rio de Janeiro: Tecnoprint, (s.d.).

FOUCAULT, Michel. História da Loucura na Idade Média. Trad. de José Teixeira Coelho Netto. São Paulo: Perspectiva, 1989.

SILVA JUNIOR, Augusto Rodrigues da. Umas Filosofias. In: Quincas Borba: Filosofia, Memória, Loucura. Goiânia, 2000. 75 p. ( Monografia apresentada à Faculdade de Letras, UFG, para obtenção do título de Bacharel em língua portuguesa e literatura).



[1] Loucura, em grego.

[2]Augusto Rodrigues da SILVA JUNIOR. Uma Filosofia. In: Quincas Borba: Filosofia, Memória, Loucura. Goiânia, 2000. p. 26.

[3] Machado de ASSIS, Memórias Póstumas de Brás Cubas.In: COUTINHO (Org.)Machado de Assis. Obra Completa, RJ. Aguilar, 1992, v. 1, p. 520. De ora em diante citado como MPBC.

[4]Amor-próprio, em Grego.

[5] Machado de ASSIS. O Alienista. Papéis Avulsos. In: COUTINHO. Machado de Assis.Obra Completa, RJ. Aguilar, 1986, v. 2, p. 287.

[6] MPBC, p. 634.

[7] Machado de ASSIS. A Mão e a Luva. In: COUTINHO (Org.).  Machado de Assis. Obra Completa, RJ. Aguilar, 1992, v. 1, p. 198.